Não foste sempre tu quem disseste que nada iria te corromper? Do alto da tua pueril arrogância te intitulavas como inflexível ante as agruras do tempo. As bordoadas da vida nunca lhe fariam dobrar os joelhos… Assim eras lá do alto dos teus dezoito anos. Foste frio e impiedoso com todos os que te amaram e nada deste em troca dos pedidos de perdão… O olhar superior e a empáfia solene lançava a todos em um torvelinho de angústia e miséria e nem assim esboçavas qualquer compaixão.

Agora, te sentas, à beira do caminho. A mão estendida, os olhos fundos e vítreos de desesperança. Onde está a tua soberba? Onde está aquela empáfia? Consumida pelo maior algoz de todos, aquele que, inexorável, marcha sobre tudo. Aquele que desafiaste e chamaste a dançar: insolente! O tempo te esperou à esquina e não te avisou quando começou a andar ao teu lado! Teus ossos fracos, tua vista cansada, tua mente que falha… O coração de pedra aos poucos vai-se em areia, antes espatifasse, mas não: decompõe-se.

Espera, não te vás, fica, mendiga mais um pouco por qualquer sentimento[...], quem sabe alguém das antigas te veja e possa enfim vingar-se, dando a ti tudo o que não pensaste sequer em oferecer: misericórdia.