Agora não adianta jogar a culpa nas invasões cariocas por todas as mortes e alagamentos da cidade maravilhosa. No Brasil de maneira geral não existe nenhuma preocupação quanto a forma de ocupação urbana, seja por parte das construtoras, escritórios de arquitetura ou governos municipais e talvez nunca venha a existir. Urbanismo é apenas uma palavra agregada ao diploma em muitas Universidades Federais de Arquitetura. A ética ao lidar com a condição humana e a maneira através da qual uma nova construção irá afetar o seu entorno e a cidade é descartada em nome do lucro e da velha alegação do “se eu não fizer, outro vem e faz!” ou “eu preciso ganhar dinheiro p’ra minha família…” e ainda “não sou o primeiro, já fizeram antes, nem serei o último…”. Então, os índices de permeabilidade – que em linguagem leiga significa a camada de terra que não será coberta por piso e construção, dentro de um terreno a construir – que já são diminutas, pelo menos em Salvador, são na maioria das vezes desconsideradas ou tratadas com um cinismo James Bondiano… Ou seja, não é um problema apenas dos morros ultra ocupados por favelas, as edificações de luxo ou medianas, na parte de baixo da cidade, também têm sua parcela de culpa e é bem grande. E daí vem a chuva… E para onde vai toda a água?
Existe também a ineficácia na conscientização da população a respeito das formas contraceptivas e de um plano de governo para controle [em massa] da natalidade. Sim, o povo brasileiro continua a procriar e muito! As taxas de mortes infantis e recém nascidos diminuíram, mas aumentando a população, mas todo o resto ficou no mesmo passo de antes, lento, lerdo, anacrônico. Resultado dessa equação catastrófica, cidades incham, qualidade de vida cai, se faz necessária a construção de novas unidades habitacionais e isto acontece, na maior parte das vezes, à revelia do governo municipal, que ao invés de trazer o povo para o seu lado o afugenta com taxas e mais taxas, documentações e burocracias sem fim… Não somos mais o país do jeitinho mas sim do se meu vizinho faz, eu também faço! E lá vamos nós… O governo não pensa, nem planeja a ampliação do número de escolas. Esquece da saúde. Trata os funcionários das duas áreas como lixo, cai a qualidade dos serviços e a educação do povo, que tende bichificar[sic] seus relacionamentos urbanos e o sentido da palavra urbanidade já esquecido há muito tempo torna-se utópico…
Falta interesse sincero dos administradores e legisladores municipais para reverter essa situação. Em outras postagens deste blog eu critiquei a “democracia” praticada na maior parte dos países ocidentais pois ela é falsa. Trata-se apenas da manteiga sobre o pão pois nada muda. Estamos num círculo vicioso e para que essa democracia funcione a participação da população consciente é essencial e isto só ocorrerá com educação, cultura… Não adiantam, apenas, obras de contenção dos efeitos colaterais das chuvas. A progressão destes problemas é geométrica. E na verdade, apesar desta chuva do Rio de Janeiro ter sido sim mais violenta, não foi a única causa, as grandes capitais brasileiras estão estafadas, fisicamente deterioradas… Fazer o que? Tentar diminuir os riscos de novas catástrofes, diminuir corrupção, aplicar a verba pública na melhoria de equipamentos urbanos e principalmente aplicar estudos urbanos sobre a peculiar condição das encostas enfavelada[sic] das grandes cidades brasileiras. Pois com certeza, se não há um estudo urbanístico sobre como melhorar a condição da estrutura física habitacional nestes locais, não deve ser difícil encontrar profissionais gabaritados para isso aqui no Brasil…
Enfim, todos comemoram a vinda de uma Olimpíada para uma cidade sul americana. Será um gasto absurdo para limpar, construir, “re-urbanizar”(entenda-se com isso maquiar o que é feio para fins exclusivamente turísticos e não um real estudo urbanístico com a finalidade de melhoria de vida dos habitantes da cidade) e tudo sob a alegação que o evento trará para o Brasil o lucro dos investimentos de empresas estrangeiras, melhoria na imagem da cidade e do país e bla, bla, bla, bla… No entanto a vaidade dos nossos políticos aliada ao sistema pão e circo + voto nos levará ao gasto de bilhões aplicados em uma infraestrutura para uma grande maioria de atletas dopados virem desfilar no Rio de Janeiro sob os olhares de uma platéia apta a pagar, a tomar pelo ingresso mais barato para a abertura dos Jogos de 2008, R$43,75… E alguém ficou triste em saber que essa grana toda poderia trazer melhores condições de vida, educação, saúde para milhões de brasileiros mas não vai?
Não sou sociólogo, não pratico o urbanismo, só queria desabafar… e é para isso que, também, servem os blogs e os twitters da vida.