Penso se não seria melhor estar morto a viver todo o sofrimento que tenho passado…
Penso se não seria melhor estar louco a ter a completa consciência de toda a insanidade que tenho vivido…
Enlouquecer, quando se quer, é difícil.
Morrer, nem tanto.
Penso se não seria melhor estar morto a viver todo o sofrimento que tenho passado…
Penso se não seria melhor estar louco a ter a completa consciência de toda a insanidade que tenho vivido…
Enlouquecer, quando se quer, é difícil.
Morrer, nem tanto.
Vislumbrei o fato de que não tenho mais condições psicológicas de viver em Salvador, talvez no Brasil. Os últimos dias têm me mostrado que o meu nível de estresse e desespero ao lidar com as pessoas ao meu redor ultrapassou o limite o absurdo. Simplesmente não consigo mais tolerar a burrice, ignorância, presunção e arrogância dos outros seres humanos com as quais convivo no dia a dia, seja apenas por alguns instantes em ônibus ou à rua e também no trabalho…
Daí, pensando comigo mesmo e sendo o meu carrasco, como geralmente eu tento ser para não dar aos outros a chance de sê-lo, primeiro me considerei um “se fazendo de vítima” “coitadinho”, por não me adaptar ao “environment”. Oras! Depois me questionei se eu realmente iria tolerar conviver com os intelectuais, os donos do saber… Sinceramente, não. Conheço pessoas que se acham conhecedores de tudo e são dois pés em cada ovo do saco!
Concluí, portanto, que o problema sou eu… Não sei brincar de sociedade. Tá, eu até gosto de sair, encontrar amigos, encontrar pessoas, ver gente, conhecer seres humanos e tals, mas por favor, não o tempo todo, não… não dá! Acho lindo quem consegue, quem tem esse talento. Mas não é para mim. Trabalho? Acho que deveríamos ter dois ou três nos quais desenvolveríamos as atividades necessárias ao longo da semana. Dois dias em um, três no outro, talvez duas ou três tarde para um terceiro… A variedade gera uma satisfação, provavelmente até diminuiria o ímpeto poligâmico de alguns “machos”. Vai saber, né!
Me irrita o dia a dia com o sempre “mais do mesmo”! Burrice: me irrita! Falta de educação: me irrita! A inexistência de cultura em um indivíduo: me irrita!
Quando eu afirmo que todas essas coisas me irritam, não quero dizer que sou o supra sumo da inteligência, cultura, educação! Eu peido, arroto, enfio o dedo no nariz, falo palavras de baixo calão e atravesso a rua no sinal aberto… mas tudo ao seu momento.
O que fazer? Não sei. Se tiveres uma dica, a mais besta que for, me ajude…
Eis a pedra que lançada ao lago, afunda solene e rapidamente atingindo o esquecimento solitário do escuro não saber… não saber-se. Rio ou mar, a sina é a mesma, vai-se, mesmo que desviada por uma correnteza qualquer, ao profundo desconhecimento de sua existência. Pesada ou não, ela segue, silenciosa, sem questionamentos, sem bruscos movimentos… Piscina ou poço, ela irá acomodar-se, inerte, ao fundo.
A pedra na vida sou eu que me sinto. A vida segue e eu nela me afundo, não importando qual vida, como a pedra eu me precipito ao fundo. Mergulho no escuro da alma e não importa quantas sejam as alternativas. Não há diferença se vivo as vidas uma a uma ou todas em uma. Eu sigo inerte, mas diferente da pedra, eu poderia me mover… lutar… mas covardemente vou rumo ao escuro abissal para no fim, atingir o nada, em silêncio.
Um baque surdo.
Quem dera nunca ter atingido a água…
Futebol é a coisa mais importante dentre todas as menos importantes. Acho que foi o Nelson Rodrigues quem disse algo assim ou muito similar. Concordo! Mas infelizmente eu adoro futebol, mais o meu time do coração do que a própria seleção do Dunga e Ricardo Teixeira, ainda mais sem o Ronaldinho Gaúcho. Contudo isso não quer dizer que eu execre a camisa da Canarinho, ainda mais o segundo uniforme, que para mim é o mais bonito quando com os calções brancos! O que a Nike fez, com a sua nova proposta de uniforme, aprovada pelo Ricardo Teixeira, foi descaracterizar o tradicional azul e branco, transformando-o no segundo padrão da Suécia. No fim, fica parecendo um pijama… ou a camisa oficial do Bozo na copa do mundo. Ridículo!
Fuck off Nike!
Naquela manhã ele acordou mais cedo que o habitual e sentado à cama ele puxou o gatilho de sua alma. Suas idéias, lembranças, pensamentos em forma de projéteis perfuravam a fina e débil membrana daquela que era a sua realidade… Ele não estava preparado para isso. Em desespero saiu porta a fora, corria desnorteado por ruas e becos, labirintos dentro da sua própria inconsciência… A sanidade que lhe era apresentada através dos furos ocasionados por seus disparos era demasiadamente pesada para ele. O tecido da sua loucura se desfazia ante seus olhos perplexos. As lágrimas que em outras épocas lhes ameaçavam inundar a vida e afogá-lo agora apenas molhavam sua face. Sentia os dedos dos pés e das mãos formigarem, o pulmão ardia… O que era aquilo? Consciência? Do que?! Não queria mais enxergar tanta perfeição, pessoas riam ao seu redor… amavam… eram felizes… O seu olhar perdido procurava um resto de loucura para se agarrar, talvez esconder-se, encolhido como uma criança medrosa à barra da saia da mãe… Nada encontrava. Era sanidade por todos os lados… todos os poros… E aquele barulho horrendo ecoando em sua cabeça: bip! bip! bip! bip! bip! bip! bip! bip!
O que será isto agora? – pensou.
O despertador já o massacrava os ouvidos há alguns minutos. Eram cinco horas da manhã. Mais um dia de trabalho. Os mesmos rostos. A mesma rotina. O mesmo enfadonho trabalho de todos os outros dias. Nada daquilo valia a pena. O que era demasiado interessante nisso tudo? Por que tantos desejavam uma vida dessas. Sucesso! Dinheiro! Garagem com dois… três carros. O status quo era um massacre. Decidido a reconstruir a sua prórpia realidade e mais uma vez lançar-se através daquela tão confortável trama de insanidade, ele ergue-se para um novo dia…
Sentado à cama, puxa o gatilho…
Acordo atrasado para o trabalho… na verdade estava acordado já há algum tempo, mas o trabalho não me empolga muito então resolvi me atrasar. Bebo de um gole só o café de ontem que desce morno, quase frio e pesado feito chumbo, o gosto que deixa em minha boca é algo desagradável o suficiente para despertar qualquer parte do meu ser que ainda estivesse dormindo, menos… Após um banho rápido e gelado me apronto para sair. Encho os meus bolsos de tudo o que preciso e vou para o ponto de ônibus com aquele mau humor matinal costumeiro.
À espera do transporte matinal estavam duas velhas com ares de carolas de 1930, uns tipinhos com cara de acordar cedo apenas para irem aos lugares públicos e falar mal da vida alheia – detestáveis. Havia também uma mulher jovem e tão feia quanto mal arrumada mas com um ar amistoso e faceiro que lhe compensava a beleza prejudicada e os andrajos e uma bicha tentando se disfarçar de macho com sapatos pretos bico quadrado, calça jeans e uma camisa branca meio aberta, só faltava a capanga em baixo do braço…
Me mantenho o mais afastado possível o tempo que me é permitido… Porém em plena sete horas da manhã o sol parecia estar à pino. Inferno! Me dirijo ao abrigo e procuro um lugar à sombra… Opa! Ponto para mim! Sorte ao meu lado… lá vem o ônibus! Neste momento sinto que o café já ia perdendo o efeito, eu começava a ficar mais irritadiço. Abre a porta do ônibus e um som ensurdecedor invade meus ouvidos! Penso “que merda é essa?!”. Subo os degraus olhando para todos os lados tentando identificar o imbecil que está a escutar aquilo. Decepção total, vinha dos auto-falantes do próprio veículo… sorte água abaixo! Viagem ao som de dupla sertaneja modernosa!
O cobrador a roncar em sua cadeira me obriga a tocá-lo à mão na tentativa de tirá-lo dos braços de Morfeu! Nada… outro cutucão! NADA! Um cutucão mais forte acompanhado de um “Ôh senhor!!”, eu quis complementar com um “Vamo trabalhar seu filho da puta!”, mas ainda consegui me controlar! Ele quase dorme novamente enquanto eu lhe passava o dinheiro! Me posiciono em um assento na parte central do carro, ninguém à frente, ninguém em lugar algum próximo a mim. Ao fundo um moleque de quinze anos com fones de ouvido e a camisa de uma escola que não ficava naquela direção… penso, “vagabundo miserável, desperdiçando o dinheiro familiar!”.
Neste momento percebo o quanto necessito de um café! Não há condições! Lembro das balinhas do almoço de ontem, estavam ainda no bolso da calça… é quando eu percebo a pistola no meu bolso! Uma mulher senta nos banco imediatamente anterior ao meu, e tosse em minha nuca! “Vaca!”. Um idiota senta-se à minha frente com um perfume absurdamente forte e horrorosamente fedido! “Viado!”. Uma criança de colo inicia o seu choro matinal mais à frente! Meu Deus, as duas velhas pegaram o mesmo ônibus, aquilo que eu achava que eram miados ou latidos ou qualquer coisa animal eram elas duas a rirem! A dupla sertaneja ainda cantava aquela mesma música odiosa… Muitas cadeiras vazias e ainda assim alguém vem sentar-se ao meu lado… As balinhas de café, todas as cinco que eu havia enfiado goela adentro acabaram… Desespero! Olho a estaferma ao meu lado, uma cara de parva, provavelmente uma carente que o único contato físico que iria encontrar numa vida inútil seria roçar o braço ao braço de outrem em um assento de ônibus!
A 9 mm em meu bolso falava comigo, gritava… “vamos baby, vamos tocar um rock and rollzinho para eles!”. Eu tentava me esquivar destes pensamentos, suava frio. A parva percebeu algo, levantou-se e foi sentar-se em outro lugar, mas não em um totalmente vazio, não, sentou-se ao lado de outra pessoa. Aquela nojenta atrás de mim não parava de tossir em minhas costas… Pego a pistola e começo a tirá-la do bolso bem devagar… é agora! Vocês vão ver seus merdas! A parva toma um susto ao me ver de pé! A minha camisa estava encharcada de suor, olho para trás e a nojenta me devolve o olhar com ma expressão de nojo e desaprovação… Vou atirar nela primeiro! De repente percebo o “cheiroso” coçar o nariz e olhar para mim. Raiva! Ele vai primeiro!
- Ei Zé…! Nosso ponto! Vamos!
Droga, o Jeferson… Não o tinha visto. Ele é gente boa, não posso matá-lo. Desço… E penso, “Amanhã! Amanhã!”.
Em algum lugar alto da cidade, num prédio alto, provavelmente em um andar alto de um bairro de alto nível…
- Pedro, que abafamento é este? Não venta e o céu escuro escuro…
- Já, já chove! Pode esperar! Óh, começou o vento forte com cheirinho de chuva.
- Ai, adoro esse cheiro, tão gostoso! Baixa os toldos das janelas, podemos aproveitar a chuva melhor!
- Claro. Carlinha, faz pipoca! Tempo bom para DVD, sofá, pipoca, refrigerante e… o que mais vier!
- É p’ra já… ai esfriou! Fecha a janela amor? [pensa] ai ai, hoje tem!
- [pensa] Eita que é baixa o toldo, fecha a janela… Assim eu fico exausto. Desse jeito hoje não tem…
Em algum lugar alto da cidade, numa encosta próxima a uma auto pista, um barraco qualquer…
- Jonilson! Vai chover! Como faz meu preto?
- Bom, o barraco do lado já foi na última água!
- É… com a Silvaneide dentro, pobre Silvaneide!
- Ah Nizete, pobre todo mundo é por aqui!
- E aí… Pega as crianças na escola, vamos p’ra casa da tua mãe, lá nas C…!
- E quem disse que ônibus vai passar no ponto…
- Temos de arriscar, melhor que ficar aqui… Qualquer coisa nadamos.
- ha HA! Safado! ‘Tá!, vamos pegar aquele que passa pela Centenário? Ficou tão lindo por lá…
- Nossa! ‘Tá chovendo p’ra caral…
[!?]
Não deu tempo de sair da casa… Não deu tempo de ver a Av. Centenário… O tempo não deu…
- Pedrooooooo! Vem amor… DVD vai começar… Pipoca na manteiga e eu… hihihi!
- Opa! Estou indo! Nossa ‘tá chovendo p’ra caralho!
- É… tão bom! Vem, vem…

Não era a hora certa para dizer adeus, mas mesmo assim eles o fizeram, pois assim ela queria. Naquele ponto a estrada se apresentava distinta para ambos, não era bem uma bifurcação… Parecia que um estava a querer voltar e o outro a seguir, ou talvez voltar também. Pois já não lembravam de onde vinham, dormiram naquele ponto o tempo suficiente – no tempo deles – para esquecerem quem eram antes. Construiram um lar, plantaram árvores e o jardim estava florido e ainda assim parecia que haviam chegado por ali há pouco tempo.
Os caminhos distintos em sentido mas de mesma direção talvez os conduzissem a um reencontro lá no futuro, milhas adiante. O problema eram os atalhos. Ela era fã dos atalhos, queria chegar logo, rápido e sem esforços. Chegar logo e… e partir novamente! Ele, mais paciente gostava da demora da viagem , queria chegar no momento exato – “exato do que?”, ela se perguntava. Ele nunca pegava atalhos!
Partiram, cada um para o seu lado.
Ela a passos rápidos e largos, lágrimas pulando à face, energicamente olhava para trás. Queria voltar correndo para ele… E quanto mais queria voltar mais acelerava os passos adiante. De qualquer forma ele nunca olhava para trás. Ele a ignorava. Parecia calmo desde ali, tão longe já. Sempre aquela calma que a fazia sentir desprezada. Mais ela chorava, mais rápido ia, aos soluços agora. “Ai que dor! Sabia que me ignorava, já não era de hoje…”.
Ele, desde que ela decidira ir-se, criara aquela coisa… aquilo que se parecia com ele! Ele não sabia o que fazer, desfrutar da companhia dela doía muito pois cada minuto parecia mais com o adeus do tamanho de uma vida inteira. O que ele chamara de “eu mesmo” ficara parado no mesmo lugar, ele sabia que ela iria andar rápido como sempre e não perceberia que “eu mesmo” estava parado. Enquanto isso ele a seguia, por de trás da árvore que eles haviam plantado ontem mesmo e já dava frutos… Olhos d’água até… sumiu.